Em apenas dez meses de mandato, o prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), mergulhou a administração municipal em uma grave crise financeira. Após rejeitar receitas e linhas de crédito, o gestor agora admite a possibilidade de decretar calamidade financeira, medida que deve agravar ainda mais o cenário de instabilidade nas contas públicas da capital.

A decisão causa perplexidade, especialmente porque o próprio prefeito abriu mão de fontes legítimas de arrecadação — como a taxa do lixo e o programa de refinanciamento de dívidas (Refis) —, além de ter recusado um empréstimo de mais de R$ 180 milhões já aprovado pela Câmara Municipal.

Em declarações recentes, Abílio chegou a afirmar que “Cuiabá não precisa do dinheiro do governo Lula”, reforçando o tom ideológico de sua gestão.

Economistas e servidores públicos criticam a postura do prefeito, apontando falta de planejamento e improviso administrativo. egundo especialistas, a recusa em manter programas de arrecadação e investimentos reduziu drasticamente o fluxo de caixa do município, comprometendo a execução orçamentária de 2025 e ameaçando o pagamento da folha e a continuidade de serviços básicos.

Calamidade financeira – situação em que o governo estadual ou municipal reconhece que não tem condições de cumprir suas obrigações financeiras básicas. Na prática, pode funcionar como um pedido de flexibilização de regras fiscais, limites de gastos e endividamento – a fim de reorganizar as contas públicas e manter os serviços funcionando.

Na ocasião, Brunini definiu determinou 180 dias de calamidade e redução de despesas em 40%, além da reavaliação de licitações e contratos. A medida não foi suficiente para reverter a crise da cidade, com previsões de que o governo encerre o ano com déficit de até R$ 364 milhões, sendo R$ 120 milhões somente na saúde.

Agora, o mandatário parece apresentar o novo decreto de calamidade em doses homeopáticas: no dia 1º de outubro, ele anunciou um “alerta financeiro preventivo” para Cuiabá. Ao contrário da declaração de calamidade pública, a medida não flexibiliza regras de contratação ou orçamentárias. Segundo a Prefeitura, o objetivo é “comunicar oficialmente ao Executivo, ao Legislativo e à sociedade que a gestão está em risco de não conseguir cumprir os compromissos até o fim do ano”.

Em coletiva dada no dia 2 do mesmo mês, Abílio Brunini voltou a admitir fragilidade financeira na Prefeitura e não descartou um novo decreto de calamidade.

“Não está descartado [possibilidade de decreto de calamidade]. Estamos fazendo contenção de despesas e tentando buscar encaixar dentro do nosso orçamento aquilo que for possível. Sabidamente não vai fechar no ‘zero a zero’ no final do ano, mas nós vamos tentar coordenar o que a gente consegue ajustar – e a saúde é minha prioridade”, alegou.

Vale lembrar que, ainda em setembro deste ano, Brunini utilizou um decreto de calamidade para isentar de licitação a aquisição de bens e serviços necessários à obra de reparos da ponte sobre o Córrego do Moinho, localizada na Avenida Um, no bairro Jardim Imperial. Ele declarou “situação de emergência” para a obra , autorizando a mobilização de todos os órgãos municipais, convocação de voluntários e adoção de medidas de urgência.

Não preciso do dinheiro do Lula”

Em uma fala que marcou sua campanha e início de gestão, o prefeito Abilio Brunini adotou um tom de confronto direto com a administração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante discursos e entrevistas, o gestor, correligionário e alinhado à ala de Jair Bolsonaro (PL), declarou que a capital mato-grossense possuía arrecadação robusta e seria capaz de caminhar com as próprias pernas, dispensando recursos federais e dizendo que “Cuiabá não precisaria do dinheiro do governo Lula”.

A declaração foi usada para reforçar postura de independência em relação à União e agradar sua base ideológica, sendo criticada por adversários políticos e por especialistas em administração pública – que apontaram a importância da cooperação entre entes federativos.

Os contínuos anúncios de sufoco financeiro vivido por Cuiabá entraram em confronto com a posição inicial de Brunini. Isso porque, ao decretar calamidade, o gestor permite à prefeitura flexibilizar regras fiscais e solicitar apoio financeiro de outras esferas de governo, especialmente da União. Nas redes sociais, o prefeito tem sido alvo de críticas por tornar-se potencial beneficiário das políticas e dos recursos que antes renegava.

Demissão de servidores e lixo na cidade

Os reflexos da crise já são sentidos nas ruas. De acordo com apuração do Blog do Popó, mais de 200 trabalhadores da Limpurb foram demitidos nas últimas semanas, o que provocou acúmulo de lixo em diversos bairros. A paralisação parcial da limpeza urbana tem sido vista como o primeiro efeito concreto da crise fiscal e da falta de gestão na infraestrutura. Moradores relatam que o acúmulo de resíduos está se tornando um problema de saúde pública.

Nos bastidores, o clima entre os servidores é de insegurança diante da possibilidade de atraso nos salários e suspensão de contratos. Há também o temor de que o decreto de calamidade seja usado como instrumento político, permitindo gastos emergenciais sem a devida transparência.

 

Ideologia ao invés de administração

A situação coloca em xeque a estratégia de Abílio Brunini, que tem priorizado disputas ideológicas e ataques a adversários políticos em detrimento da gestão administrativa. Caso o decreto de calamidade financeira se confirme, o prefeito deve enfrentar resistência na Câmara Municipal e pressão de órgãos de controle, em meio ao crescente cenário de desorganização e descrédito da Prefeitura de Cuiabá.