
Marcus Vinícius Beck
No início de “Rei”, o jornalista Paulo Vinícius Coelho descreve a mão repousada nas pernas magricelas do bebê franzino. Seu Dondinho fraseia: “Vai ser um grande jogador de futebol.”
Estamos em Três Corações entre outubro e novembro de 1940. Dondinho, ex-centroavante do Atlético Tricordiano, mudou-se para a pequena cidade mineira pra cumprir o serviço militar. Foi quando conheceu Celeste, mãe do recém-nascido Edson Arantes do Nascimento.
Conforme PVC, Celeste desprezou a ideia de ter um filho jogador de futebol. Sofrera com a inclemência do esporte, embora o marido fosse talentoso. Uma lesão no joelho inviabilizara a carreira de Dondinho seis meses antes de Pelé nascer. Frustrado, viu a pobreza de perto.
A profecia do pai funcionou — quando no Santos, em 1956, aos 15 anos, Pelé já era melhor que seus companheiros. Chutava bem com as pernas direita e esquerda, cabeceava de olhos abertos, fulminava goleiros. Era um artista da bola, das quatro linhas e dos gols.
Abduzia os zagueiros, enlouquecia-os, desorientava-os — vai ver se estou lá na esquina, europeuzinho. Assim se define a estética peleniana: sambística. Uma bossa, digamos.

Como um bailarino ludopédico, o Rei Pelé estetizou o fragilizado futebol brasileiro nos anos 1950. O difícil, o impensável, dizia o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, não era balançar as redes mil vezes, como Pelé. Era, sublinhava, fazer um gol como Pelé.
O Rei é incomparável, ainda que tentem há pelo menos 66 anos equipará-lo a Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskás, Johan Cruyff e, como sabemos, Maradona — cá pra nós, apenas os argentinos (e talvez um ou outro detrator) acham el pibe de oro melhor do que Pelé.
Craque do jogo e das palavras, Tostão explica na Folha de S. Paulo: “Pelé tinha um globo ocular saliente, para fora, o que aumentava sua visão periférica.” Possuía ainda o que os neurologistas nomeiam de inteligência cinestésica: “Enxergava mais do que os outros.”
Ainda assim, o futuro do pretérito — esse modo verbal estranho — me motiva ressalvas: nosso modernismo futebolístico estaria com seus dias contados? Não haveria mais o samba esquema novo da bola? Nem o free-jazz do drible? É, leitor, então é hora de repensar.
Acredite, Pelé sofre nas mãos — ou seria na cabeça? — da geração Z. Embora seja mais popular no planeta do que em seu próprio país e tenha até parado uma guerra, o maior de todos já não é nome onipresente entre nascidos de 1996 a 2010. Ele e nosso futebol, aliás.

Você observa coisas inacreditáveis: jovens postando fotos nas redes sociais com camisetas de Portugal ou França. Como?! Pior, uns e outros ainda relativizam o talento de Pelé. Vai ver, pensam eles, o camisa 10 do tri não serviria para engraxar as chuteiras de CR7 ou Messi.
É preocupante essa relativização — ou seria desconhecimento? Pelé, ao contrário do que a Z pensa, espalhou a ideia de brasilidade para o mundo na Copa de 58, a primeira vencida pela seleção canarinha. Além disso, foi símbolo de um período otimista da história brasileira.
Entre 1958 e 1962 (com os dois títulos mundiais), o país abandonou a vira-latice, reforçada pelo fracasso no Mundial de 1950. Passou a sonhar embalado pela bossa nova de João Gilberto, pela arquitetura de Oscar Niemeyer e pelos gols de Pelé — tal é a sua relevância.
Diagnóstico
José Miguel Wisnik, em seu “Veneno Remédio”, diagnostica: “Pelé parece funcionar com a frequência diferente da dos demais jogadores, como se ele tivesse mais tempo para pensar e ver o que se passa, assistindo, em câmera lenta, ao mesmo jogo do qual está participando.”
Rebobinemos o drible no goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz durante a semifinal da Copa de 1970: Pelé já é Pelé. Está cansado de saber que é um gênio, um inventor, um mito. Por isso, não faz o protocolar, prefere o sublime — ginga na frente do arqueiro. Perde o gol.
Segundos antes, Tostão — número 9 às costas — erguera a cabeça. Pelé se projetou, como um irado felino em caça. Mazurkiewicz enxergou a bola rolando à sua esquerda, enquanto o Rei, errado e desequilibrado, chispava para o lado oposto. Chutou para fora, porém.
Se Pelé — com seus dribles — elevou a nossa autoestima, também nos ajudou a explicar o país. Foi o menino pobre que melhorou sua condição financeira (e de sua família) com a bola. Não à toa, ao marcar o milésimo gol no Maracanã, em 1969, pediu atenção às crianças.
Na obra “Pelé – O Negão Planetário”, o antropólogo Antonio Risério rebate a tese segundo a qual o Rei dizia jamais ter sido vítima do racismo. Risério, cujo texto não está à altura de Wisnik, afirma que o craque representa “a vitória negra, imensa, formidável, espetacular”.
Só que Risério, por mais bem-vindo que seja seu livro, publicou em 2022 um artigo no qual fala de um mentiroso racismo de negro contra branco. É certo, então, seus tropeços textuais. No entanto, o autor atesta: “Edson é a mesmice cotidiana, Pelé, o relampadear dos deuses.”
Voltemos ao livro “Rei” e às reflexões do jornalista Paulo Vinícius Coelho: “durante esses 66 anos, o ponto de comparação é sempre o mesmo: Pelé. Isso é ser Rei. Isso é ser Pelé.”
Autor: Paulo Vinícius Coelho
Editora: Planeta Livros
Páginas: 272
Preço: R$ 68,90

Autor: Antonio Risério
Editora: Topbooks
Páginas: 470
Preço: R$ 85,43

VENENO REMÉDIO: O FUTEBOL E O BRASIL
Autor: José Miguel Wisnik
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 448
Preço: R$ 99,90